Na obra, é comum cada profissional entrar em momentos diferentes. A arquitetura organiza o espaço, define volumes, proporções e estética. A marcenaria costuma chegar depois, quando muita coisa já está decidida.
Mas quando essas duas áreas trabalham juntas desde o início, o resultado muda — e muda muito.
Não se trata apenas de um móvel bonito. Trata-se de funcionalidade, durabilidade e soluções que realmente funcionam na vida real.
Papéis diferentes, responsabilidades complementares
O arquiteto enxerga o projeto como um todo: circulação, linguagem estética, integração entre ambientes e conforto.
A marcenaria entra no detalhe construtivo: medidas reais, limites do material, sistemas de abertura, espessuras, folgas, ferragens e montagem.
São olhares diferentes. E exatamente por isso, um não substitui o outro.
Quando cada decisão é tomada de forma isolada, surgem ajustes tardios, improvisos e soluções que funcionam no papel, mas falham no uso. Quando há diálogo, o projeto amadurece.
Um exemplo simples — e muito comum na prática
Um ponto frequente nos projetos está relacionado às dimensões dos painéis e armários.
A chapa padrão de MDF possui medidas máximas de 1,80 x 2,75 m. Sempre que um projeto prevê painéis maiores do que isso, a marcenaria precisa lidar com emendas.
Quando esse limite não é considerado na fase de projeto, a emenda aparece apenas como uma necessidade técnica — muitas vezes em locais visíveis e sem intenção estética. O móvel funciona, mas o resultado visual pode ficar comprometido.
Por outro lado, quando o arquiteto compreende essas limitações desde o início, o projeto pode seguir dois caminhos conscientes:
ajustar as dimensões para evitar a emenda ou, quando ela é inevitável, incorporá-la ao desenho.
Em materiais amadeirados, por exemplo, o alinhamento correto dos veios e o sentido das placas permitem que a emenda fique discreta, quase imperceptível. Não é improviso. É decisão técnica pensada junto.
Quando o detalhe construtivo vira acabamento
Em um dos nossos projetos, o pé-direito era elevado e o painel possuía uma largura superior às dimensões padrão da chapa. A solução não foi “esconder” a emenda, mas transformá-la em parte do desenho.
Criamos um espaçamento de 1 cm entre as placas, resultando em bordas filetadas e um acabamento limpo, contínuo e visualmente equilibrado. A limitação do material deixou de ser um problema e passou a ser um recurso estético.

Esse tipo de solução só acontece quando arquitetura e marcenaria caminham juntas — quando o detalhe construtivo é pensado como parte do projeto, e não resolvido às pressas na obra.
O cliente percebe — mesmo sem saber explicar
Quem usa o espaço sente a diferença:
- móveis com leitura mais limpa
- materiais bem resolvidos
- menos recortes estranhos
- sensação de cuidado nos detalhes
São decisões que não chamam atenção pelo excesso, mas pela naturalidade do resultado. E isso é o que torna um projeto duradouro.
Mais diálogo, menos correções
A marcenaria não deveria entrar apenas para executar o que já está definido. Assim como a arquitetura não precisa carregar sozinha decisões que impactam diretamente o móvel.
Quando existe parceria desde o início, o retrabalho diminui, as soluções se tornam mais inteligentes e o resultado final ganha consistência.
Arquitetura e marcenaria não competem.
Quando trabalham juntas, o resultado realmente muda tudo.
